quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A RESISTÊNCIA DAS DEMOCRACIAS LIBERAIS E AS TENTATIVAS DE RESOLUÇÃO DA CRISE

O intervencionismo do Estado

Para J.M. Keynes os estados deveriam intervir na atividade económica evitando os efeitos das crises de superprodução típicas dos regimes liberais e sua principal fragilidade. Surgiu assim o intervencionismo como teoria económica adotada pela generalidade dos estados atingidos pela crise de 1929.
Keynes criticava também as políticas deflacionistas que combatiam a massa monetária em circulação e reduziam as despesas dos Estados o que, na sua opinião, acentuava ainda mais os efeitos negativos das recessões.
Para Keynes, o Estado deveria ter um papel controlador e regulador do mercado e dos agentes económicos, defendendo o investimento estatal e a ajuda controlada às empresas. De entre os países que adotaram tais políticas distinguem-se os EUA e a França.

EUA -  New Deal

O modelo de recuperação económica do New Deal baseava-se no relançamento da economia através do investimento estatal em obras públicas e na redução do desemprego apoiando os desempregados e demais população em situação de crise. Adotaram-se:
  • medidas financeiras rigorosas com desvalorização monetária, regulação e fiscalização da atividade bancária e inflação controlada através de preços controlados. 
  • Política de grandes obras públicas que combateu o desemprego e política social de criação de salário mínimo. 
  • Política de reorganização agrícola para controlar a produção e indemnizar agricultores pela redução das áreas cultivadas. 
  • Política de controlo da produção industrial com preços mínimos e adoção de quotas de produção. 
  • Política social a partir de 1935 criando fundos de reforma e velhice, subsídios de desemprego e apoio aos pobres, salário mínimo e redução do horário de trabalho.
França - Frente Popular

Na França, país atingido duramente pela recessão, as políticas anti-crise eram quase exclusivamente deflacionistas. O desemprego subiu, tal como o descontentamento e as criticas de todos os quadrantes surgindo movimentos fascistas e xenófobos. No meio da crise social surgiu um governo de Frente Popular, coligação constituída por partidos de esquerda democrática, liderado por Léon Blum. Combateu o surto grevista que afetou vários setores da economia e entre 1936 e 1938 desenvolveu-se a legislação social e promoveu-se uma política de concertação social com contratos coletivos de trabalho regulando direitos, obrigações, horários de trabalho, férias pagas e salários. Foram fiscalizadas as atividades dos bancos e do Banco de França, nacionalizadas as fábricas de armamento, os caminhos de ferro, e promoveu-se a regularização da produção e os preços dos cereais. Foi ainda estabelecida a escolaridade obrigatória até aos 14 anos e  o desenvolvimento dos desportos de massas

Espanha - Frente Popular

Também reagindo à crise que provocou a queda da monarquia espanhola e o fim da ditadura de Primo de Rivera, a Espanha caiu num período de crise política e económica que tal como na França provocou o aparecimento de governos de esquerda de Frente Popular em 1936 reunindo socialistas, comunistas, sindicalistas e anarquistas. Foram tomadas medidas drásticas de caráter político como a separação da Igreja do Estado, direito à greve, aumento de salários e ocupação de terras. O caráter esquerdista das medidas ocasionou uma forte reação da direita capitalista que apoiou um pronunciamento militar encabeçado pelo general Franco em Marrocos, que iniciou uma marcha militar que degenerou numa guerra civil que se prolongou durante três anos. 

A GRANDE DEPRESSÃO

Ao longo dos anos vinte, apesar da prosperidade evidenciada por largos setores da economia americana, havia outros que não conheciam o desenvolvimento esperado. A extração de carvão, a construção ferroviária, têxteis tradicionais e estaleiros navais tardavam em desenvolver-se o suficiente e a ultrapassar uma certa estagnação desde o final da guerra e o desemprego aumentava, além dos baixos salários que em geral eram pagos aos assalariados que obrigavam grande parte da população a viver do crédito e das prestações para comprar todo o género de bens. Colheitas demasiado excedentárias  na agricultura provocavam baixos preços e queda dos lucros dos agricultores. Assim, largos setores de atividade sobreviviam com recurso aos bancos e aos empréstimos, quer para ultrapassar dificuldades de tesouraria quer para manter um certo nível de despesa. Também os investidores acionistas atraídos pelos lucros que a compra e venda de ações gerava desenvolviam paralelamente essa atividade utilizando empréstimos bancários para o fazerem. E assim a especulação bolsista aumentava (a bolha acionista...) apoiada nas expectativas do crescimento económico gerando valores das ações que não correspondia à real situação financeira de muitas empresas bem cotadas. 


Entre 21 e 29 de Outubro de 1929 o valor das ações começou a descer acentuadamente lançando o pânico na Wall Street e levando muita gente a procurar sem resultado vender as ações que subitamente não tinham compradores. Tal aconteceu devido às noticias alarmantes sobre a situação de algumas empresas bem cotadas e pela falência de alguns especuladores ingleses na bolsa de Londres como a casa comercial Clarence Hatry. Os investidores ingleses na Wall Street venderam em massa e o valor das ações dos pequenos investidores caiu a pique levando à insolvência milhares de pequenos investidores que se tinham endividado na banca para investirem nas ações. De um dia para o outro os acionistas ficaram sem dinheiro e os bancos que lhes tinham emprestado também, provocando falências em muitas casas bancárias americanas. Outras consequências: 
  • empresas faliram 
  • desemprego elevadíssimo
  • quebra no consumo
  • quebra dos preços
  • baixa da produção industrial 
  • baixa dos salários
Efeitos sociais: 
  • proliferação dos bairros de lata 
  • fome e pobreza extremas
Desenvolveu-se assim o longo período de crise a que se deu o nome de Grande Depressão







Mundialização da crise: persistência da conjuntura deflacionista


Os efeitos da crise alastraram para todo o mundo. Todos os países dependentes dos capitais americanos foram afetados pela retirada dos investimentos e capitais americanos em outros países nomeadamente na Europa, América do Sul e Oceania. Também os países dependentes do comércio e das exportações para os E.U.A. foram fortemente afetados pela crise e entraram também em crise económica devido à política protecionista de H. Hoover que aumentou as taxas sobre as importações para 50%. 

A conjuntura era deflacionista, marcada por:

  • queda dos preços
  • quebra da produção
  • diminuição do investimento e da produção. 
Os países afetados pela crise adotaram políticas restritivas: 
  • reduziram a concessão de crédito
  • aumentaram impostos 
  • reduziram ordenados 
  • desvalorizaram moedas
Mas os efeitos foram ainda mais negativos pois retraia-se a procura dificultando a recuperação económica criando mais obstáculos ao investimento e ao crescimento.



Para melhor entender a conjuntura vivida na época recomenda-se a leitura do livro "As Vinhas da Ira" (1939) do escritor americano John Steinbeck ou o filme com o mesmo nome, datado de 1940 (existe no CRE).

Filmes mais recentes também focaram a temática da Grande Depressão, através de outros pontos de abordagem como "Cinderella Man" de 2005.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

" AMADEO DE SOUZA CARDOSO - À VELOCIDADE DA INQUIETAÇÃO" - Documentário


A PROPÓSITO DO MOVIMENTO FUTURISTA EM PORTUGAL


AS VANGUARDAS EM PORTUGAL

O início do século XX é marcado em Portugal pela permanência do naturalismo nas artes plásticas (José Malhoa, Columbano Bordalo Pinheiro, Carlos Reis, Alberto de Sousa) protegido e apreciado mesmo pela burguesia republicana. A partir de 1911, as mudanças políticas alteram o panorama cultural e imprimem uma dinâmica de mudança a todos os níveis da arte e da cultura. O cosmopolitismo e a renovação do espírito e da visão do mundo baseou-se numa visão crítica dos valores e gostos da burguesia - é o modernismo. 

1º Modernismo 
Marcado por artistas como Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Jorge Barradas, Amadeu de Souza Cardoso ou António Soares.
Em vez da volumetria adota-se o plano e traçado geométrico e esquemático.
Temas de sátira política, social e anticlerical. Ambientes urbanos e retratos psicológicos, esbatimento da perspetiva em duas dimensões, cores claras e garridas, simplificação das formas. 
A 1ª Guerra fez regressar a Portugal Santa Rita pintor, Eduardo Viana, Amadeu de Souza Cardozo.
Em Lisboa surgiu a revista Orpheu com Almada Negreiros, Santa Rita, Fernando Pessoa, José Pacheco e Mário de Sá-Carneiro adotando a tendência nascente do Futurismo.
No Porto, Eduardo Viana, Souza Cardoso e Delaunay. 
 O Futurismo adaptou-se ao dinamismo cultural republicano. Rompendo com o passado e a tradição, o imobilismo e saudosismo exaltava-se a raça latina, o orgulho, a ação e o movimento. O manifesto Anti-Dantas foi um documento marcante reagindo contra as críticas que provinham das fações culturais mais conservadoras. Em 1917 surgiu o Ultimatum futurista às gerações portuguesas no século XX e o número único da revista Portugal Futurista com pinturas de Amadeu, Almada, Santa Rita e textos de Pessoa, Sá Carneiro, Marinetti e outros. 

2º Modernismo 
 Nos anos 20 a 30 decorreu a vaga do segundo modernismo. 
José Régio, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro como escritores e pintores como Almada Negreiros e Eduardo Viana, Dórdio Gomes, Mário Eloy, Carlos Botelho, Sarah Afonso, Abel Manta, Vieira da Silva.
Destacaram-se as revistas Presença e Contemporânea, Ilustração Portuguesa, Domingo Ilustrado, ABC, Ilustração, Sempre Fixe.
A oposição dos setores conservadores e do governo manteve-se, por isso os artistas procuraram impor-se em locais como cafés, clubes e exposições individuais.  
António Pedro será uma figura importante no grupo surrealista português nascido em oposição à cultura do Estado Novo. Organizou a exposição dos Artistas Modernos Independentes reagindo contra a tentativa de arregimentação dos modernistas portugueses que António Ferro, na altura diretor do Secretariado da Propaganda Nacional, tencionava fazer. 








Amadeu de Souza Cardoso
Rumou a Paris, desde cedo procurando na pintura a realização como artista. Encontra-se com Delaunay e outros  como Juan Gris e Modigliani participando em exposições célebres como o Armory Show de Nova Iorque. Regressa a Lisboa em 1914 e encontra a resistência dos setores mais tradicionais. Participa nas revistas Orfeu e Portugal Futurista. Experimenta todas as tendências, desde o cubismo ao dadaísmo passando pelo expressionismo e futurismo. Morreu de pneumónica em 1918. 






Almada Negreiros 



Foi o mais destacado e conhecido dos modernos. Saiu do Colégio dos Jesuítas de Campolide. Inicia-se no campo da pintura e participa no salão dos Humoristas de 1912.
Desenvolve com Pessoa o Orpheu e Portugal Futurista desenvolvendo atividade literária em textos de intervenção, como o Manifesto Anti-Dantas, panfletos, poemas e novelas.
Em 1919 vai para Paris, regressa e desiludido parte para Madrid onde desenvolve a técnica do Mural até 1933. Em 1954 pinta o retrato de Fernando Pessoa. Morreu em 1970. 

Eduardo Viana
Foi dos nomes mais destacados da segunda fase do modernismo português.
Em 1905 partiu para Paris com Manuel Bentes procurando atualizar-se no convívio com os pintores da moda. Viaja pela Europa e conhece a pintura de Cézanne que o influencia.
Regressa em 1915 com os Delaunay e fixa-se no norte onde desenvolve a sua técnica. Aborda o cubismo matizando-o com cores alegres e cheias de luz. Regressa à figuração volumétrica que sempre o marcou com um toque oitocentista contrariado apenas pelo império da cor. 

A LITERATURA

Todo o período das primeiras décadas do século XX foi marcado por uma inovação acentuada ao nível da literatura que pôs em causa os valores e as tradições literárias com uma grande variedade de temas e estilos semelhante à que percorreu as artes plásticas. 
Os escritores procuraram libertar-se da expressão da realidade concreta adoptando percursos comprometidos com a psicanálise, e a vida interior das personagens. As obras literárias tornam-se tributárias da expressão de desejos, recalcamentos e emoções intensas, longamente descritas por vezes em intermináveis discursos monocórdicos. É o caso da obra de Marcel Proust "Em busca do Tempo Perdido" editado em 1913. 
Desta época são também André Gide que proclama a liberdade do sujeito e a rejeição de regras e convenções sociais. 
A mudança dá-se ao nível do tema mas também da forma, da linguagem e da construção frásica como no caso dos poemas caligramados de Apollinaire, dos dadaístas, dos surrealismos de Eluard ou Breton. Também é desta época "Ulisses" e "Finnegans Wake" de James Joyce, romances imbuídos de intimismo e um confronto obsessivo entre as memórias e o mundo presente. 
Caligramas de Apollinaire 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

SURREALISMO


DADAÍSMO - O MOVIMENTO "DADA"


AS VANGUARDAS ARTÍSTICAS - RUTURAS COM OS CÂNONES DAS ARTES E DA LITERATURA


O movimento modernista desenvolveu-se nos inícios do século XX a partir da Europa e em cidades cosmopolitas e com forte movimentação cultural como Paris, ponto de encontro das vanguardas culturais da Europa e do mundo. Reagindo contra o classicismo naturalista e o paradigma romântico e conformista do século XIX os movimentos artísticos vanguardistas procuraram exprimir um intimismo de raiz psicológica matizado com a visão relativista dos fenómenos, admitindo visões alternativas e desfigurando a realidade. 
Nova estética influenciada pela psicanálise, a psicologia e o pensamento relativista desfigurando a realidade e admitindo visões alternativas:  

Fauvismo  1904 Paris - Matisse, Derain, Rouault. Arte infantil, ingénua e alegre que utiliza cores agressivas e imagens deformadas. 

Matisse, Harmonia em vermelho
Expressionismo – 1905 Dresden - Munch, Kirchner - sobrevalorização do Eu e das angústias da existência, dramatismo na utilização de tons fortes e ambientes pesados onde o pessimismo está presente rejeitando o classicismo romântico.




Munch, O Grito

Cubismo analítico 1908 até 1912 - Braque, Picasso, Juan Gris. Decomposição do espaço tridimensional e geometrização multidimensional da realidade. Os objetos expõem várias facetas do Eu simultaneamente atingindo uma essência.   
Cubismo sintético - reagrupamento do objeto reagindo contra a decomposição extrema a que os analíticos tinham chegado em 1911. Simplificação das formas e agregação de materiais ou justaposição na composição de objetos toscos com intuito simbólico, agrupados de acordo com uma ideia essencial que remete para o sentido da obra. Braque.,Gris, Leger, Delaunay. Guernica foi das últimas pinturas cubistas de Picasso. 

Futurismo 1909 Itália - Marinetti. Rejeição do passado e glorificação do futuro. A máquina e a velocidade como fonte de inspiração. O mundo industrial e a guerra, o dinamismo e o movimento.

                                                                         
Abstracionismo sensível ou líricoKandinsky, 1910 – baseado no expressionismo distinguiu-se pelas cores vivas, pelo apelo ao inconsciente, onírico e intuitivo. Combinação de formas e cores.



Neoplasticismo ou Abstracionismo geométrico –  Piet Mondrian, geometrismo 1917 – Holanda pintura limpa geométrica, ordenada e desprovida de acessório e inutilidades, figuras geométricas elementares que exprimem uma função social da arte como realidade pura desprovida do  inessencial.


Dadaísmo 1916 Suíça - Tzara, Hans Harp. Denúncia da sociedade, desprezo pela guerra e pela arte que é reflexo da obra dos homens. Chocante e obsceno para agitar a sociedade, subversão sem sentido, retrato do próprio mundo. O ilógico, acaso, absurdo. 


Surrealismo – 1924 Paris - Breton, Magritte, Dali. Surgido na literatura, o surrealismo projetava o inconsciente e onírico na obra de arte explorando o psiquismo dos autores. Terreno de divagação de várias correntes técnicas o surrealismo sublinhava o retrato do mundo inconsciente dos sujeitos.


Salvador Dalí, Narciso